Nossas Histórias

“O projeto ‘Nossas Histórias’ foi inspirado no livro ‘Minha História’ da Michelle Obama, e tem com objetivo honrar a história pessoal e profissional (a parte que cada pessoa se sente confortável em contar) dos trabalhadores que escolhem (porque é sempre uma escolha diária) fazer parte da Fundação, que cuida e faz parte da história dos usuários da assistência social de Caxias do Sul. O projeto oportuniza os servidores à se conhecerem melhor, percebendo semelhanças e respeitando os processos individuais dentro do coletivo.” – Katiane Boschetti da Silveira, presidente da FAS.

“Prazer, eu sou a Inês Erlo Ribeiro. Tenho 62 anos, sou casada, tenho 2 filhas e uma netinha linda de 1 ano e 5 meses.

Aos 39 anos de idade, quando minhas filhas já estavam na adolescência, optei por buscar uma formação acadêmica, entrei para o curso de Serviço Social, e acabei me identificando com a área social. Em janeiro de 2004, me formei e, pensando em obter experiência na minha de área de formação, prestei concurso para o cargo de Educador Social da FAS, pois não havia concurso aberto para Assistente Social na ocasião. Para minha surpresa, fui aprovada em 1° lugar! Fui nomeada e quando assumi, iniciei minha jornada como Educadora Social substituindo uma colega em licença prêmio, pelo período de 30 dias, no antigo Centro Educativo São Vicente. Quando a colega retornou de licença, fui removida para o Centro Educativo Flor de Ipê, onde permaneci por 5 meses, quando fui convidada a trabalhar na Sede da FAS, no já extinto Atendimento Comunitário, trabalho hoje realizado pelos CRAS. Neste setor, permaneci por 3 anos e meio, onde também atuei como Coordenadora. Em 2008, assumi a Coordenação dos Centros Educativos da FAS, que na época contava com 6 serviços próprios. Permaneci neste cargo até 2014, quando prestei novo concurso para Assistente Social, fui nomeada e permaneci na FAS. Neste novo cargo, minha lotação foi para o CRAS Leste, onde permaneço até o presente momento.

Durante o período em que atuei como Educadora Social, obtive muitas experiências, as quais me identifiquei com a área da Assistência Social, e isto contribuiu para que com o novo cargo, eu permanecesse na área. Apesar das experiências nem sempre serem as almejadas, pois os desafios são grandes e devido as complexidades do trabalho, por trabalharmos com pessoas nas mais diversas vulnerabilidades e riscos sociais, as vezes nos parece que o resultado do nosso trabalho é pequeno, porém gera um impacto na vida dos usuários e das famílias que atendemos, contribuindo para uma mudança positiva, causando uma conscientização para o enfrentamento das dificuldades vivenciadas por elas. Um dos fatos que marcou a minha trajetória profissional na FAS, enquanto Assistente Social, foi a situação de uma Idosa que residia sozinha no interior do Município, que deveria estar sob cuidados de um familiar que tinha interesses financeiros sob a Idosa, porém estava em situação de abandono em um ambiente insalubre, e não tinha condições de cuidar de si mesma, dependendo de cuidados de terceiros. A UBS procurou o CRAS para auxiliarmos neste caso e promovemos o reencontro da Idosa com os familiares com quem já havia residido anteriormente, e que tinham cuidado e carinho com ela, onde viveu dignamente até vir a falecer, com mais de 90 anos de idade. Já como Educadora Social, vivemos inúmeras situações de violência e negligência familiar com as crianças e adolescentes que frequentavam os Centro Educativos da FAS, onde foi necessária a intervenção da equipe para promover a proteção das crianças e adolescentes, em alguns casos, sendo necessário o acolhimento institucional. Em contrapartida, o nosso trabalho proporcionava muitas alegrias, tanto para os profissionais quanto para as crianças, nas atividades educativas, recreativas e de lazer que eram realizadas nos Centro Educativos da FAS.

Durante estes quase 18 anos de atuação na FAS, ocorreram constantes mudanças na legislação, nos serviços e na forma de atuação dos profissionais, que exigiram estudos e capacitações permanentes para qualificar os atendimentos aos usuários e famílias que buscam os nossos serviços. Minha satisfação e alegria em estar atuando profissionalmente faz com que eu deseje permanecer atuando por mais alguns anos, apesar de já ter idade suficiente pra me aposentar, embora ainda faltem alguns anos de contribuição previdenciária. Mas o que me faz permanecer atuando é o amor e o carinho que eu tenho pelo meu trabalho e pela minha profissão. Durante a minha trajetória profissional na FAS, convivi com Colegas maravilhosos, em que alguns tornaram-se amigos, que contribuíram e contribuem para que eu me sinta segura e com disposição para enfrentar os desafios diários do trabalho. Agradeço a cada Colega que tive e tenho o prazer de compartilhar momentos de trabalho e crescimento pessoal e profissional.”

“Prazer eu sou a Franciele Fernandes da Rosa, uma mulher de 31 anos, assistente social…

Sou fruto de uma família de migrantes, de trabalhadores rurais da fronteira do estado que deixaram a sua terra em busca de uma vida melhor. Sou filha daqueles que buscaram alcançar sonhos através do trabalho, vendo a possibilidade de alcançá-los na desconhecida, promissora e “fria” Caxias do Sul. Sou o resultado de sonhos; daqueles que com pouco estudo ousaram sonhar com uma formação acadêmica para sua filha.

Sou o resultado da criação que valoriza em primeiro lugar o trabalho. E o trabalho árduo como principal fator de formação de um “bom caráter” …. Mas graças aos sonhos sonhados com tanto suor, pude vislumbrar que viver não é apenas trabalhar por trabalhar. Hoje me reconheço como classe trabalhadora mas, entendo que a vida é mais… A vida é arte, é luta, é convivência, é acesso ao conhecimento, a vida é plena… E por me reconhecer dessa forma me reconheci como Assistente Social, como aquela que atua na defesa intransigente dos direitos, aquela que respeitando sua própria história, novamente ousa sonhar.

E sendo uma Assistente Social de profissão e otimista por opção, escolhi ser servidora pública de Caxias do Sul, pois entendo que é no serviço público que o Estado faz a diferença na vida dos cidadãos. Não escolhi ser servidora desta Fundação, não escolhi ser uma trabalhadora da Assistência Social, mas ousei seguir…Seguir sonhando, seguir trabalhando e defendendo direitos…E sim; hoje posso dizer eu escolho estar nesse lugar, que escolho permanecer e percorrer os caminhos complexos da política de Assistência Social.

Assim me descrevo Assistente Social de formação e sonhadora por opção! Aquela que encontrou na arte da dança Flamenca a energia que emana força e criatividade… ‘El Flamenco grita que mi alma calla!'”

“Prazer, eu sou a Meri!

Meu maior desafio, sem dúvidas, foi mudar para Caxias do Sul, pois diante da minha nomeação não foi possível nenhum familiar me acompanhar, ou seja, deixei em Porto Alegre marido, filhos, irmãos e amigos.

No início foi extremamente difícil, pois sequer sabia me locomover direito na cidade muitas vezes vindo a parar em locais perigosos, mas com o tempo formei um círculo de amigos que me ajudaram muito nesse processo.

Já conhecia a FASC, que é o órgão gestor da assistência social em Porto Alegre, por isso me chamou atenção o concurso e o fato da formação acadêmica ser na área contribuíram para minha decisão de trabalhar na FAS.

A busca pela tranquilidade aliada a qualidade de vida me levaram a estabelecer residência em Flores da Cunha, Capital Nacional do Vinho. A proximidade da natureza contribuiu para amenizar o estresse do cotidiano, sendo que essa necessidade se tornou mais intensa com a chegada da pandemia.

No auge da pandemia estava lotada no Conselho Municipal do Idoso (CMI), com o isolamento social os idosos necessitaram muito de acolhimento e orientação, de modo que minha passagem por esse espaço foi bastante significativa, pois permitiu me aproximar da realidade de um público até que até então era distante para mim. O aspecto positivo da pandemia foi a possibilidade de meu esposo e o filho, virem para mais perto de mim. Concluo que não poderia trabalhar com outro público senão o da assistência social, pois minhas vivências profissionais impactam diretamente no meu aprimoramento humano.”

“Prazer, sou a Rosângela, agente administrativo do CRAS Norte. Penso que meu maior desafio é ser mulher. Desde pequena fui ensinada a fazer as tarefas domésticas, menina brinca de boneca e se veste de cor-de-rosa, a ser delicada, mas, acreditava que isto não era para mim, fugia de lavar louça, brincava com os meninos e para brigar podiam contar comigo, cor-de-rosa sempre gostei. Concluí o ensino médio e não consegui pagar um curso superior. Namorei, casei, tenho duas filhas. O meu melhor, o meu tudo são as filhas Camila e Sabrina e a neta Roberta. Estou reinventando minha vida, acadêmica num curso de tecnólogo, porque precisamos interagir com outras pessoas, adquirir conhecimentos, elevar a autoestima e prevenir o envelhecimento cerebral, pois estou completando 60 anos em abril.

Eu estava trabalhando no SENAI, quando resolvi fazer o concurso da FAS para agente administrativo, passei no concurso e assumi em 06/02/2001. Eu não tinha ideia das atividades na Política Pública de Assistência Social. Meu estágio probatório foi no setor de compras, na sede da FAS, um aprendizado importante para minha vida funcional, conheci muitos colegas, que se tornaram amigo – não citarei nomes pra não esquecer de ninguém.

Em 2004 fui relotada para o Núcleo que atendia famílias apoio sociofamiliar e medidas socioeducativas. Em 2006, quando o município aderiu ao SUAS, vim para o CRAS Norte onde estou até hoje. Aprendi que nossas atribuições do cargo não tem rotina e sempre ocorrerão mudanças nas trocas de governo. Amadureci muito nestes anos de serviço público na FAS. Eu fortaleci meu caráter e mudei muitos conceitos em minha vida, hoje sou uma pessoa mais flexível, com empatia, tolerante, respeitosa, Agradeço cada pessoa, que fez e faz parte do meu crescimento individual e como servidora da FAS.”

É difícil falar sobre nós mesmos, mas como a missão é essa, vamos tentar…

Meu nome é Felomena da Silva Santos, nasci no dia 15/05/71 na cidade de Bento Gonçalves, filha caçula de um militar e uma dona de casa. Nos mudamos para Caxias do Sul em 1984, onde concluí o ensino fundamental na Escola Estadual Abramo Pezzi.

Anos após, fiz o supletivo para concluir o ensino médio, e uma professora me olhou e disse que eu não deveria parar de estudar, pois eu era muito inteligente! Resolvi acreditar nela e fui atrás do diploma do curso normal no Colégio São Carlos. No segundo semestre do magistério, nas didáticas do Ensino Religioso, encontrei com a Irmã Celina que me convenceu que eu tinha jeito para educadora social e me levou para estagiar no Centro de Cuidados Nossa Senhora Da Paz, vinte e dois anos atrás.

Pois não era que ela tinha razão? Foi ali que descobri o meu amor pela educação social e mesmo tendo concluído a faculdade de Pedagogia e feito especialização em Pedagogia Empresarial, a Educação Social roubou meu coração e trabalhar na Fundação de Assistência Social passou a ser um objetivo.

Antes de entrar para a FAS, na área social, cheguei a trabalhar no Centro Cultural Espírita Jardelino Ramos, na Associação Criança Feliz e na Casa de Acolhimento Recanto Amigo, além de professora de escola infantil e escola regular.

Entrei para a FAS no ano de 2014, lotada na Casa de Acolhimento Estrela Guia, um lugar que eu considero de puro amor, apesar dos desafios inerentes ao serviço da alta complexidade que me motivam a sair de casa todos os dias.

Porém mais que me desafiar, esse trabalho me motiva a aprender a me tornar um ser cada dia mais humano! Trabalhar na Alta Complexidade é um trabalho de entrega, e recebemos na mesma medida que nos doamos! É com esses olhos que enxergo o trabalho desenvolvido. É um trabalho que, apesar de desafiador, encanta, estimula e inquieta. Por isso, é tão especial!

Muito prazer, eu sou Eleni Raquel da Silva Tsuruzono, mais conhecida como Raquel, ou “raquelzinha”, a “pequena notável”, apelido carinhoso recebido logo que cheguei em Caxias do Sul (RS). Tenho 51 anos, vivi intensamente cada fase de minha vida e creio, se tive uma segunda chance, é para construir um legado: fazer a diferença na vida das pessoas.

Mãe de dois filhos, Vitor e Kaori, sou grata a Deus pela oportunidade de gerar, cuidar e educar estes dos seres que vieram para o mundo trazer muita luz em nossa família, também agradeço intensamente pelo marido, companheiro que Ele me direcionou, presente em momentos bons e ruins.

Filha de comerciante e neta de agricultor, meus ancestrais me ensinaram os valores que dão base a minha vida. Integridade, honestidade, amor o próximo, generosidade são princípios que tenho, e, através de atitudes, busco passar aos meus filhos.

Paixão em servir, desde criança já participava de lutas comunitárias, levei a carta dos estudantes, para compor texto da carta magna no processo constituinte de 1987/88. Após fui para a Universidade – UNISINOS, estudar Serviço Social, e continuar na luta por direitos sociais. Na busca incessante pelo conhecimento fiz Pós-Graduação em Saúde Pública (UFRGS) e Gestão do Terceiro Setor e Responsabilidade Social. Anos depois, fiz mestrado na PUCRS.

Assistente social há 27 anos, mestre em Demandas de Políticas Públicas, estudiosa da área do envelhecimento humano e da família, palestrante e mentora de diversos projetos na área do Idoso em três cidades do Rio Grande do Sul: Cachoeirinha, Sertão Santana e Caxias do Sul.

Apaixonada pela profissão, vim para Caxias do Sul, com um filho de dois anos. Marido no Japão, irmãos morando na Europa e meus pais na cidade de Gravataí (RS). Muitos desafios, cidade nova, pessoas mais fechadas, comparando aos gaúchos que moram na capital. Mas, como se diz, você colhe o que planta, fui plantando amor por onde passava, constituindo amizades, parcerias, fortalecendo vínculos, fui adotada pelos caxienses. Ingressei na FAS dia 29/04/2002 – exatamente no dia do aniversário de 2 anos do meu filho. Perdi a festa dele, na escolinha infantil, mas meus pais, compraram um bolinho e enchemos muitos balões e festejamos juntos as nossas vitórias. Henriete deve lembrar deste dia, por que foi ela que me acolheu com muito amor, uma colega que se tornou amiga, muitos colegas/amigo(as) marcaram minha vida e transformaram-a mais leve e feliz. Gratidão a todos os colegas da FAS, Prefeitura e OSC que contribuíram com minha peruca, com palavras de estímulo, com amor e compaixão. Vocês contribuíram, significativamente a vencer o Câncer.

Já trabalhava há 11 anos em órgão público, mas a Fundação de Assistência Social de Caxias do Sul, tem sua particularidade. Inicialmente fui estudar sobre medidas socioeducativas, uma área nova na minha trajetória profissional, na época iniciava as discussões sobre o SINASE. Concomitante, trabalhei com mulheres em situação de violência na Casa de Apoio Viva Rachel, um aprendizado incrível, no qual, até hoje, no trabalho social com família, aproveito o conteúdo para validar e refutar práticas. Em um período bem breve tive a honra de trabalhar com Homero, educador social que respeitava muito, na Abordagem de Rua.

Meses depois fui convidada a trabalhar na equipe de “Apoio a Gestão”, muitas inquietudes no que se refere ao trabalho com famílias, com idosos e os desafios de trabalhar com o terceiro setor. Tal situação, me levou a provocar o diretor da Faculdade Fátima a realizar um pós-graduação em Gestão do Terceiro Setor e Responsabilidade Social, anos depois um curso de extensão em gerontologia social. Almejávamos a qualificação da Política de Assistência Social, melhoria no trabalho de gestão das ONG, como também no atendimento direito às famílias. Duas entidades formadoras com o mesmo propósito, uma vez que a UCS promoveu o Curso Trabalho Social com Famílias para a rede, culminando em publicações e qualificação do atendimento.

Preocupada com processo acelerado do envelhecimento humano, as formas de proteção e inserção social do idoso, nestes 27 anos como assistente social, me envolvi ativamente no processo de constituição de Grupos de Convivências para Idosos, Centro Dia para Idosos e Programa de Apoio Sócio Familiar ao Idoso – OASF IDOSO. Participei junto com Ministério Público Estadual do processo de regularização de Instituições de Longa Permanência para Idosos de Caxias do Sul, entre outros projetos e ações, que possibilitaram a inclusão social do idoso em três cidades gaúchas. Nestas cidades, prestei assessoria para a criação do Conselho Municipal do Idoso e, também, me envolvi na organização das conferências municipais, além de ser escolhida delegada às conferências Estadual e Nacional. Em Caxias, fiz parte do Grupo de Trabalho (GT) que reorganizou o Conselho, organizou a Política Municipal do Idoso de Caxias do Sul e criou o Fundo do Idoso. Fui a titular da Coordenadoria do Idoso de 2013 à 2017, espaço de grande aprendizado e muita dor, fiquei um ano, afastada em tratamento.

Lembro que também tive oportunidade de ser cedida para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a qual fez parte da equipe de projetos e captação de recursos para o terceiro setor. Trabalho muito gratificante, ele vai além do assistir, proteger, está na promoção do ser humano a crescer com seu próprio esforço, isto no remete à dignidade. Nesta época coordenei o Programa PRONATEC e Acessuas.

Atualmente estou lotada CREAS Sul, no atendimento social com famílias, famílias machucadas, crianças negligenciadas. Adoro o que faço. Aprendo com cada núcleo familiar. São muitos desafios, mas o maior é de compreendê-los, traçar um plano de ação e colher os frutos. Neste espaço socio-ocupacional é preciso aflorar constantemente o senso investigativo, porque, por mais que tenhamos uma base com teorias que embasam, o SUAS, com protocolos, resoluções, normativas, as expressões da questão social contemporânea se transformam ou emergem novas expressões. Sendo assim, é necessário buscar novas ferramentas, novas metodologias que possibilitem a intervir de forma mais resolutiva a realidade que ora se apresenta.

Por fim, ou, um novo recomeço, em que o meu perfil comportamental, justifica o meu jeito de ser e está tudo certo. Eu não preciso mais me preocupar com o que outro pensa sobre mim, porque eu sei exatamente quem sou e do meu propósito aqui na terra. Próximo da aposentadoria, de uma fase incrível que estou desenhando para minha vida, uma vez que o meu desejo de transformar vidas permanece e, certificada como Coach Integral Sistêmica, minha missão continua…

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E aí? Prazer, eu sou o Dangelo.

Nasci em 1980, aqui mesmo em Caxias, em uma família de alemães e italianos. Minha mãe é uma simpática dona de casa e meu pai um nada pacato senhor aposentado, cuja alegria familiar é “fazer festa” para minhas sobrinhas (filhas de minha irmã mais nova). Aprendi a ler “desenhando as letras” nos gibis do Demolidor e do Homem-Aranha que eu ganhava de minha mãe. Eu era uma criança introspectiva, o que levou minha professora da 1ª série a acreditar que eu era um sujeitinho esquisito e tinha algum tipo de “obscura moléstia mental”, sendo melhor atendido na classe especial da escola… Minha mãe não gostou muito da ideia, que acabou nem vingando. Fiquei chateadinho e, de birra, resolvi ler todos os livros da biblioteca. Isso rendeu novo convite à classe especial…

Com o fim da escola, eu estava na dúvida: meus testes vocacionais foram inconclusivos. Segundo eles, eu poderia ser um psicólogo sofrível, um advogado mais ou menos ou um bom professor. Os argumentos familiares quanto a falência alimentar da classe educacional me direcionaram ao mundo do Direito. Assim, me (de)formei em ciências sociais e jurídicas. Uau. Mas não gostei. “Teria sido melhor assistir ao filme do Pelé”, resumiria Chaves.

Alérgico ao mundo jurídico, fui trabalhar na biblioteca de uma universidade. Acabei contemplado para uma bolsa no programa de mestrado e fiz uma dissertação questionável sobre um tema esdrúxulo qualquer. Até ganhei convite para um doutorado. Nossa, que sabidão, este rapaz.

Após o mestrado, deixei a biblioteca e fui trabalhar em uma livraria, fazendo renda extra na correção de monografias e aulas particulares de produção textual. E, despretensiosamente, fiz o concurso da prefeitura. Para minha surpresa, fui aprovado e chamado para a gloriosa Fundação de Assistência Social.

Comecei na FAS em 2011, aprendendo as manhas e artimanhas administrativas desta Fundação e, durante uns meses, trabalhei como agente administrativo no CRAS Leste. Porém, descobriram minha vida pregressa: era formado em direito, pós-graduado em literatura, mestre nos saberes profanos da cultura e regionalidade. Até um curso de teologia, tinha… Não deu outra: a presidente da época bateu seu martelo de Thor, com raios, trovões e tudo mais: “Dangelo, amadinho, você vai trabalhar com a Aninha, nos convênios da FAS”. E eu, mero mortal, que achava que os convênios eram coisas com farmácia e estacionamento…

Os anos com os tais convênios, e depois com os famigerados termos de fomento e colaboração, até que não foram tão terríveis. Tive uma excelente mestra e colegas muito dedicados. A gente percebe que a Assistência Social é um universo. Ou multiverso. Bom, “inusitado” com certeza, mas só se houver dotação orçamentária para tanto, se não, é só complicado, mesmo.

Naquela época, após longa argumentação, juntada de petições e inquirição de testemunhas, convenci moça de fino trato e ilibada reputação a firmar contrato matrimonial comigo. Casei-me, tornando a mim mesmo homem de boa índole e de família: Servidor público, agora provido de ralas barbas, me vi senhor do destino de dois gatos e três plantas ornamentais. Estava no ápice da cultura ocidental.

Há alguns anos, deixei o setor de parcerias e, atualmente, estou na corregedoria da FAS. Foi uma mudança e tanto. Processos de sindicância, investigativos, apuratórios, de responsabilização, ou ainda os tais PADs… Não é fácil, mas convenhamos, senhores leitores: o que na FAS é fácil, não é?

Bom, acho que é isso. Ah, também fui voluntário nos projetos SOS Mata Atlântica e TAMAR (tartaruguinha, não desista…!), fiz estágio no IBAMA, tive uma Confraria de Literatura e escrevia artigos para uma revista digital sobre quadrinhos, literatura e Rock’n Roll. Gosto de ler, participo de trilhas e tento pintar miniaturas. Higiene mental, tá ligado? Diz que faz bem. Todos deveríamos ler, pintar miniaturas, ou fazer trilhas, mas nunca pintar miniaturas lendo em uma trilha. Aí, não.

Dica de livros para aquecer o coraçãozinho dos trabalhadores do SUAS: “A história sem fim” de Michel Ende, “Grandes esperanças” de Charles Dickens e “Corpo de Baile” de João Guimarães Rosa.

Dica de livros para causar sono aos trabalhadores do SUAS (e ao resto da humanidade): “A ética demonstrada à maneira do geômetras” de Baruch de Spinoza, “Eles, os juízes, vistos por um advogado” de Piero Calamandrei e o eterno “Normas Nacionais e Internacionais de Contabilidade – NBC’s” de Carlin e Hoog. Sério, duas páginas após as refeições noturnas e terás uma noite de sono profundo, quase um estado comatoso.

Valeu.

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Olá Colegas, muito prazer sou Marta Carrer Herpich, sou neta de uma grande família, filha de uma família grande, irmã de cinco mulheres e dois homens, dinda, tia de alguns sobrinhos biológicos e outros que o exercício da profissão me deu e, acreditem, todos moram em meu coração, também sou esposa do meu companheiro Edson e mãe do Augusto (19a) e da Sofia (15a), esta última… uma das minhas melhores versões eu diria…

Sou filha de trabalhadores, os quais inicialmente tiravam seu sustento da agricultura familiar com muita dificuldade e depois, da mão de obra explorada de empresas. Fui educada com inúmeros valores, sendo que a responsabilidade e a dedicação ao trabalho possuíram destaque significativo, os quais me renderam um bom investimento em terapia… Comecei a trabalhar muito cedo, me responsabilizando por minhas duas irmãs mais novas, no turno inverso ao da escola, aos 13 anos de idade, assinei minha carteira profissional pela primeira vez e, desde sempre, me reconheço como classe trabalhadora…

Em minha família de origem, sou a sexta filha e a primeira a conseguir cursar faculdade. Sempre fui observadora e tive minha mãe como exemplo de coragem, força, empatia, honestidade, dedicação, humildade e senso crítico. Ela foi minha inspiração para conseguir conciliar estudo e trabalho e, para escolher uma profissão onde eu pudesse contribuir para ter uma sociedade mais justa, na defesa intransigente dos direitos. Formei-me em Serviço Social em 1996, pela UCS, período em que apresentei projeto na PUC/RS para cursar Mestrado em Serviço Social e fui aprovada.

No inicio de 1997, fiz o concurso da Fundação de Assistência Social e fui classificada, senti uma felicidade que não cabia no peito, porém fui nomeada apenas em dezembro de 1998, o que foi perfeito, pois estava quase concluindo o Mestrado em Serviço Social, faltando apenas a dissertação. Quando conclui o mestrado, meu professor/orientador, me ofertou a garantia de bolsa de estudos para cursar o Doutorado em Serviço Social, mas meu projeto de vida era ser servidora pública, mãe e manter minha saúde mental… Assim declinei da possibilidade de ser doutora…

Depois de quase 14 anos de aprendizado e trabalho na iniciativa privada, dois anos na pesquisa, passei a exercer minhas atividades no serviço público na Fundação de Assistência Social… desde então, se passaram 23 anos e o aprendizado, encantamento e/ou desencantamento são contínuos. Tive o privilégio de trabalhar em diferentes serviços da FAS, assessorar o CMAS, participar e ajudar a organizar inúmeras Conferências de Assistência Social, dos Direitos da Criança e do Adolescente, do Idoso… também participei da gestão da Delegacia Seccional de Serviço Social, participei de inúmeras capacitações muitas como alunas e algumas como facilitadora, também tive o prazer de participar da primeira turma formada em Caxias do Sul, em Processos Circulares e/ou Círculos de Paz, ministrado pela Mestre Kay Pranis. Posso afirmar que tenho muitos motivos para ser grata e feliz! Orgulho-me das escolhas que fiz, das sementes que plantei e dos amigos que conquistei até aqui…

Para finalizar, deixo aqui meu protesto, pois escrever após a brilhante apresentação do nosso colega Dangelo é um mega desafio…

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Olá colegas, sou Juliana Renata da Silva, filha mais velha de Luis Valdo e Neusa. Meus pais sempre trabalharam muito, renunciaram sonhos e se preocuparam com a educação dos filhos. Foram grandes incentivadores, para que houvesse a mudança de paradigma. Tenho dois irmãos Lucimara e Luis Eduardo.

Nasci em Caxias do Sul, fui criada no bairro São Vicente e quando adolescente participei das atividades do contra-turno no Cantinho da Amizade que pertencia a COMAI. Nas férias de verão ficava ansiosa, para viajar para casa em Lageado Grande. Nesse período conheci alguns trabalhadores da assistência social, no qual me inspirei para escolha da minha profissão, como as assistentes sociais Meri e a Tere Salles.

No ano de 2000, iniciei o curso de Serviço Social pela UCS, agreguei muitas experiências e convivi com pessoas especiais que levei para vida. E em 2005, ocorreu a conclusão do curso e formatura sendo uma das maiores realizações.

Além disso, tenho outras duas conquistas que são os meus filhos Letícia e João Gabriel, que amo incondicionalmente e tento transmitir valores importantes como respeito, honestidade e empatia, assim como recebi dos meus pais.

Atualmente trabalho no CRAS Norte, tenho grande apreço pela comunidade e equipe. Acredito no trabalho que é realizado na ponta, as possibilidades e as transformações na vida do usuário.

Olá, sou Paolla Stefenon, sou assistente social, canoense, filha de metalúrgico e neta de caminhoneiro que teve o privilégio de se formar em uma universidade pública. Antes de cursar Serviço Social estava um pouco perdida sobre qual profissão seguir. Primeiro cursei Relações Públicas e depois História, nenhuma das duas graduações completei. Embora viesse de uma família com pensamentos tradicionais e conservadores, sempre me questionava o porquê haviam pessoas em situação de rua. Assistindo a filmes que eram baseados em fatos me questionava o porquê algumas pessoas tinham que se esforçar tanto para conseguir uma vida digna. A partir dessa inquietação, após acompanhamento vocacional ofertada pela própria universidade, decidi visitar a Semana Acadêmica de Serviço Social e me apaixonei: soube que ali era o meu lugar. Passei no vestibular e iniciei o curso no semestre seguinte. Nunca me questionei novamente se estaria no curso certo ou não, sabia que ali era o meu lugar.

Durante a formação meu pensamento crítico aflorou e me dei conta que não estava naquele curso por acaso: também vinha de um contexto histórico e familiar permeado por ciclos de violações de direito. Refletindo o porquê, embora ainda com inúmeros preconceitos, pensava diferente da minha família. Até que me dei conta que fui cuidada pela primeira pessoa que acessou o ensino superior de toda a minha família: meu irmão mais velho. Como tínhamos 15 anos de diferença, ele me criou já com um pensamento totalmente diferente daquele que ele foi criado, ele rompera com a violência transgeracional comigo.

Minha formação na graduação foi intensa, fazia marabalismo com estágio e bolsas de graduação, aulas de segunda a sábado. Sem o apoio da minha família não conseguiria ter entrado, permanecido e me formado. Embora não conseguissem contribuir com renda, o apoio afetivo foi sempre imensurável.

No final do penúltimo ano de graduação iniciei com os concursos públicos. Em Maio/2018 fiz a prova para a Prefeitura de Caxias do Sul e, no fim, passei. Vi que teria que adiantar a minha formatura, prevista para Janeiro/2019. Muita correria e prazos curtos, porém no final de Agosto/2018 estava formada. Na primeira semana de Setembro já estava com o registro no CRESS e com o diploma em mãos, a nomeação na Fundação de Assistência Social (FAS) veio na semana seguinte, junto com o desafio da mudança para uma cidade, para mim, ainda desconhecida, distante da família e pela primeira vez estava morando sozinha. No fim, deu tudo certo.

Hoje sou uma profissional realizada, às vezes um pouco estabanada, mas sempre fui assim na vida. Moro com a Mel, a minha cachorrinha, e sempre que posso estou com os meus amigos, degustando cervejas e na praia com a minha família.

Foi a FAS quem me escolheu, vi como um privilégio ter meu primeiro emprego na assistência social, com pessoas que compartilham a mesma luta e a importância de ter o melhor atendimento para as famílias que atendemos. Nunca havia estagiado na política de assistência, então foi tudo novo para mim. Como primeiro emprego trabalhei no CRAS Sul, fiquei em choque quando me dei conta que eu era uma assistente social e tinha inúmeras responsabilidades. Foi muito importante iniciar pela Proteção Social Básica, pude ver a realidade no território e vivenciar diretamente as diversas formas das expressões da questão social. 

A cada dia de trabalho fui aprendendo a como exercer minha profissão, no início tinha muita dificuldade nos atendimentos porque não dominava a política de assistência social na cidade, ainda não sabia os serviços da rede e nem a dinâmica da sociedade. Fui aprendendo aos poucos, sempre auxiliada pelos colegas de trabalho. Permaneci mais de três anos no CRAS Sul.

Atualmente estou no CREAS Norte, o que mais gosto no serviço é poder realizar visita domiciliar nos diversos territórios de Caxias do Sul. A cidade tem muita diversidade e desigualdades entre seus territórios, desde centros urbanos até distantes e extensas áreas rurais. Atendo desde famílias em áreas urbanas centrais até áreas onde não há sinal e nem internet de celular, com ruas de barro vermelho, grandes chácaras e com quase inexistentes pessoas passando na rua. É enriquecedor conhecer lugares tão diferentes da nossa realidade e perceber no concreto as dificuldades de cada território.

“É desafiador o acompanhamento de famílias, da articulação constante em rede e de traçar todas as estratégias possíveis para buscar novamente a união dos vínculos já rompidos. Sempre com a plena consciência da responsabilidade em esgotar todas as possibilidades para evitar possíveis acolhimentos. Infelizmente, a dificuldade que encontro é na extrema gravidade das situações, seriamente agravadas pela pandemia, e o rápido esgotamento de estratégias para evitar acolhimentos. Porém, entendo com um retrato social brasileiro, expresso em todos os serviços, tendo como cenário um desmonte de políticas públicas e na volta do Brasil ao mapa da fome.”

Sigo lutando, dentro das minhas possibilidades, no sindicato, nos fóruns de trabalhadores, no conselho profissional, na participação em conferências, porque apenas no coletivo podemos lutar pela mudança. Posso até ser uma gota d’água no oceano, mas o que é o oceano se não incontáveis gotas d’água?